Orquestras e museus do Reino Unido buscam responder às dificuldades econômicas

Enquanto o número de visitantes de museus caiu pela primeira vez em uma década, orquestras não conseguem aumentar sua receita, mesmo com maior público e número de atividades.

O blog do Observatório volta a reproduzir conteúdos traduzidos do site Arts Professionals, dedicado ao contexto das artes e da gestão cultural no Reino Unido, sede de instituições culturais conhecidas mundialmente pela sua excelência. Duas matérias de Liz Hill, publicadas no mês passado, abordam as dificuldades que atravessam os setores de museus e orquestras, e os caminhos para superá-las. Leitura útil também deste lado do Atlântico, onde a crise já deixa marcas na cultura.
Contrariando a tendência, British Museum atingiu seu
recorde de público.

Embora as visitas de cidadãos britânicos a museus tenham se mantido estáveis, o número de visitantes estrangeiros caiu, apesar do incremento geral do turismo.

O número de visitantes de museus e galerias patrocinados pelo Department of Culture, Media and Sports (DCMS) caiu pela primeira vez em quase uma década, conforme novos dados publicados. 47,6 milhões de visitas foram feitas aos 15 museus em 2015/16 - 1,4 milhões a menos do que no período anterior.
O declínio de 2,8% é quase totalmente atribuível a uma queda nos visitantes estrangeiros, apesar de um aumento geral no número de turistas que visitam o Reino Unido (RU). Os visitantes estrangeiros representam agora 47% de todos os visitantes dos museus patrocinados, enquanto representaram 49% no ano anterior. Nove dos 15 museus e galerias viram seu número de visitantes estrangeiros cair, incluindo a Tate Galleries (622.000 a menos), o Victoria and Albert (412.000 a menos) e a National Gallery (menos 254.000).
Em contraste, o Museu Britânico, o mais popular da Inglaterra, viu seu número de visitantes ultramarinos crescer em 117 mil - o maior crescimento de todos os museus - alcançando a maior visitação de todos os tempos - 6,9 ​​milhões - com participação de 64% de visitantes internacionais.
A popularidade declinante dos museus entre visitantes ultramarinos vai na contramão da popularidade das visitas ao RU como um todo. Os números oficiais mostram que as visitas ao RU por residentes no exterior cresceram pelo quinto ano consecutivo em 2015 e foram 5,1% superiores ao ano anterior. O número de feriados para o RU também atingiu um recorde histórico, e as visitas a Londres cresceram mais rapidamente do que em qualquer outro lugar do país, mostrando um aumento de 6,8% em relação ao ano anterior.

Educação e empréstimos em declínio

As visitas a museus por crianças de 15 anos ou menos (de qualquer nacionalidade) também têm registrado declínio. 7,9 milhões de visitas foram feitas aos museus patrocinados em 2015/16, uma queda de 1,8% em relação ao ano anterior. Os Museus Nacionais de Liverpool registraram 459.000 visitas de crianças, mais do que a Tate (443.000) e a National Gallery (391.000), as quais tiveram uma queda no número de visitantes nesta faixa etária de mais de 100.000.
Além disso, houve um declínio de 6,9% no número de pessoas com menos de 18 anos que participaram de atividades educacionais e eventos no local. As visitas facilitadas e auto-dirigidas por menores de 18 anos e na educação formal diminuíram 3,1%. A Tate esteve entre os museus mais bem sucedidos em atrair este grupo, com 58.000 visitantes mais do que o ano precedente.
O número de instituições, organizações, instalações de exposição e pesquisadores que emprestaram itens de do acervo dos museus patrocinados pelo DCMS caiu 7,1%. Em 2015/16, havia 1.379 locais de empréstimo britânicos, comparados com 1.484 o ano precedente. A Tate, a National Gallery e a National Portrait Gallery viram um declínio no número de seus locais de empréstimo.

Link para matéria original, em inglês.
No Brasil, a OSESP anunciou que em 2017 terá orçamento 27% menor do que o de 2016,
para projetos artísticos. (imagem: Alessandra Fratus/Divulgação-UOL)

Associação das Orquestras Britânicas: "As orquestras não podem continuar fazendo mais por menos". As estratégias bem-sucedidas de desenvolvimento do público não levaram a um aumento do rendimento do trabalho e o financiamento público deve ser restaurado, concluiu um novo relatório.

Um aumento do público e do envolvimento com as orquestras da Grã-Bretanha tem sido alimentado por iniciativas de preços como ingressos com desconto, concertos gratuitos e apresentações a preços fixos em eventos ao ar livre, de acordo com um novo relatório da Associação de Orquestras Britânicas (ABO).
Essas estratégias deixaram as orquestras "sofrendo um duplo golpe de reduções no ingresso de receitas próprias , assim como cortes no financiamento dos governos nacional e local", conclui.
"A mensagem é simples. As orquestras não podem continuar fazendo mais por menos ", advertiu Mark Pemberton, diretor da ABO. Ele pede que o financiamento público seja restaurado.
O relatório, The State of Britain's Orchestras in 2016, é baseado em pesquisas entre membros da ABO e revela como as orquestras têm respondido aos desafios apresentados por um ambiente de financiamento reduzido. Ele documenta as mudanças nas atividades e realizações de mais de 30 organizações que participaram de pesquisas semelhantes em 2013.

Os números

O número total de concertos e performances realizados por estas organizações aumentou 7% entre 2013 e 2016, e o público cresceu 3%. Os programas de extensão para crianças e jovens registaram um aumento de 35% na participação. Houve, no entanto, uma pequena diminuição nas atividades de gravação em geral.
Apesar do crescimento do desempenho, o rendimento total do grupo estudado diminuiu 5%, com rendimentos próprios, doações e financiamento público, todos apresentando redução. A renda própria continua a representar 48% do total, enquanto a proporção de financiamento público caiu em um ponto percentual, para 34%.

Restaurar financiamento

Mark Pemberton diz: "As orquestras têm inovado para alcançar maiores audiências e envolver mais jovens, e devem se orgulhar desses sucessos. No entanto, a pesquisa mascara uma realidade maior. Essas audiências maiores não trazem mais dinheiro e, conforme o caso, aumentam as perdas".
E continua: "O governo implementou este ano um mecanismo de isenção fiscal para orquestra (Orchestra Tax Relief), e isso compensará alguns dos cortes nos fundos públicos impostos desde 2010 - mas está longe de ser o suficiente. Precisamos que o governo nacional e, mais crucialmente, os governos locais restabeleçam o financiamento mais próximo dos níveis pré-austeridade para permitir que nossos membros continuem entregando grande música para o público mais amplo possível ".

Link para matéria original, em inglês.

Evolução do orçamento do Carnaval de Porto Alegre

Carnaval, aquarela de J. Lutzemberger (1947)
Foto: Fabio del Re e Claudio Stein/Reprodução PMPA
Com o objetivo de contribuir para o debate público suscitado pela decisão do Prefeito Marchezan Jr. de não efetivar os valores previstos no Orçamento de 2017 para o Carnaval de Porto Alegre - que chegam a R$ 7,5 milhões - devido à situação financeira do Município, publicamos alguns dados sobre o assunto. As fontes utilizadas são as Leis Orçamentárias Anuais (LOAs) e o portal do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS).
O período considerado inicia em 2006, ano a partir do qual a Secretaria de Planejamento Estratégico e Orçamento disponibiliza as LOAs no site. (Para os dados de execução orçamentária, o Portal do TCE disponibiliza dados a partir de 2003.)
Na tabela abaixo, dispomos os valores do orçamento municipal destinados ao Carnaval, comparando-os com o orçamento da Secretaria Municipal da Cultura ou Função Cultura e com o total de despesas da Prefeitura. À esquerda, estão os dados do orçamento previsto (conforme registrado na Lei Orçamentária); à direita, a execução, ou seja, o que foi efetivamente gasto.



A primeira constatação é a constante defasagem entre os valores orçados e executados. Nos anos de 2006-8 e 2010-12, o Município gastou mais do que o previsto (mais que o dobro, em 2006); nos outros anos, gastou menos. Observa-se também que o valor previsto para o Carnaval cresceu 365% no período (de R$ 1,6 para R$ 7,5 milhões), muito acima do crescimento da despesa total do Município (206%) e mais que o triplo do crescimento do orçamento da Cultura (101%).
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Contudo, quando observamos a execução, as despesas com Carnaval apontadas pelo TCE tiveram uma redução de 15% no mesmo período, apesar dos aumentos da despesa total (160%) e da SMC (69%). (Os valores não foram corrigidos, devendo ser considerada a inflação no período, de 88,4%, segundo o IPCA.)

No gráfico ao lado, verifica-se uma convergência entre valores previstos e efetivados, em termos percentuais, ao longo do período. Embora o percentual destinado ao Carnaval nas LOAs tenha aumentado significativamente (de 0,075% para 0,11%), os percentuais de valores empenhados tiveram uma redução de 2/3 (de 0,34% para 0,11%). Convergência que pode indicar um aperfeiçoamento, tanto na adequação à realidade da previsão orçamentária, quanto da fidelidade da execução à Lei.

Orçamento da SMC para 2017 (continuação)

Damos sequência aos comentários sobre o orçamento da SMC aprovado para 2017, iniciados na postagem anterior.

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Dos R$ 65,417 milhões previstos, R$ 15,943 milhões são de investimentos, discriminados na tabela abaixo. O elevado percentual de investimentos (24,4%) deve-se principalmente aos recursos para a remodelação da Usina do Gasômetro, oriundos de financiamento externo - R$ 10,36 milhões, que representam 2/3 de todo o investimento. Em média, o percentual de investimento da SMC ficou em 10,5% entre 2010 e 2016, conforme o Portal de Transparência.

Descontado o valor destinado aos investimentos, restam R$ 49,6 milhões a serem gastos na Função Cultura, dos quais praticamente a metade (R$ 24,4 milhões) são reservados para despesas administrativas (pessoal, contas de água, luz e telefone, etc.) da SMC.

Os recursos para o patrimônio cultural (sub-função "Patrimônio Histórico, Artístico e Arqueológico") representam R$ 4,7 milhões, ou 7,26% do total previsto para a Cultura, ou 0,068% do orçamento municipal. Este último percentual é mais que o dobro da média empenhada pelo município ao longo da década 2004-2014 nessa sub-função, que é de 0,031%. (Nesse post de 2014 publicamos uma análise comparativa dos orçamentos de cultura das capitais, com dados do Tesouro Nacional.)

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Já a ação de Descentralização da Cultura tem recursos previstos em R$ 2,306 milhões, para a realização de 161 demandas registradas no Plano de Investimentos do Orçamento Participativo, sendo a maioria de oficinas.

Post editado em 6/1/2017.

Porto Alegre e o Orçamento da Cultura para 2017

Vereadores debatendo o Projeto de Lei. (Foto: Josiele Silva/CMPA)
Após aprovada pela Câmara e sancionada pelo Prefeito, foi publicada a Lei Orçamentária Anual (LOA) de Porto Alegre para 2017, que analisamos brevemente aqui, no que se refere à Secretaria Municipal da Cultura.

O valor previsto para a SMC é de R$ 65,417 milhões, correspondente a 0,94% do total da despesa da Prefeitura (R$ 6,949 bilhões). Esse percentual indica aumento em relação à LOA do ano passado, que previu 0,8% - menor percentual da história da SMC, criada em 1988. Mesmo assim, ainda é o quarto menor da história, só superando os percentuais para 2012 e 2013, além de 2016, já citado. O percentual médio no período é de 1,26%. Apesar disso, o percentual real do orçamento, isto é, considerando os valores efetivamente empenhados ao final do ano, vem crescendo desde 2013, tendo chegado a 1,28% até o final de novembro de 2016, percentual muito superior ao de 0,8% previsto para aquele ano.

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Fumproarte

Após dois anos sucessivos de crescimento (em termos percentuais), os recursos para o Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural (Fumproarte) sofreram nova queda de 2016 para 2017, atingindo o menor valor percentual da história, 1,93% do orçamento da SMC (0,018% da Prefeitura). Para comparação, a média histórica é de 6,9% da SMC, tendo superado os 10% nos anos de 1995/96. Este último percentual foi estabelecido como referência, através da Meta 16 do Plano Municipal de Cultura, pela X Conferência Municipal de Cultura (2015). Em comparação com o total do orçamento municipal, o Fumproarte representa, na LOA de 2017, a décima parte do que representava em 1995 (0,184%). A média do período ficou em 0,085%. Nominalmente, o valor de R$ 1.264 milhão é o menor desde 2003.

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Equipamentos

Por outro lado, os recursos destinados à manutenção física e reformas da SMC (na rubrica/ação "Qualificação e Ampliação da Rede de Equipamentos Culturais") seguem tendência de recuperação, iniciada em 2014, atingindo este ano o maior percentual da série histórica, de 3,3% (com dados disponíveis a partir de 2006). O valor nominal, de R$ 2,15 milhão, é 70% superior ao do ano passado. Contudo, a maior parte desses recursos tem duas finalidades definidas: a construção do Centro Cultural Terreira da Tribo (R$ 1,35 milhão) e a recuperação do Teatro de Câmara Túlio Piva (R$ 500 mil), restando R$ 300 mil para os demais equipamentos da SMC.

Post editado em 6/1/2016.

Unesco adota a Declaração de Shenzen, por um novo pacto para os museus

Cerimônia de encerramento do Fórum

Fórum de Alto Nível da Unesco adota a Declaração de Shenzhen e apela a um novo acordo para os museus. 

"Os museus são laboratórios de ponta da nossa humanidade partilhada - para proteger o nosso patrimônio, para catalisar a nova criatividade, para nos ajudar a captar a complexidade do nosso mundo", declarou a Diretora-Geral da Unesco, Irina Bokova, no Fórum de Alto Nível sobre Museus, realizado em Shenzhen, República Popular da China, de 10 a 12 de Novembro.

O Fórum de Alto Nível sobre Museus foi criado pela Unesco para reunir os decisores políticos e a comunidade global de museus, para promover o papel dos museus na geração de benefícios sociais, culturais, educacionais e econômicos, que está no cerne da Recomendação da Unesco de 2015 sobre a Proteção e Promoção de Museus e Coleções, sua Diversidade e seu Papel na Sociedade.
Em mensagem dirigida aos participantes, o Presidente Xi Jinping, da República Popular da China, declarou que "os museus são pontes que ligam o nosso passado ao presente e ao futuro". Ao abrir o Fórum, a vice-primeira-ministra Liu Yandong reafirmou as muitas funções dos museus nas sociedades modernas, considerando que "o museu de hoje não é apenas um instituto para coleções, proteção, pesquisa e exibição de patrimônio cultural, mas também para fornecer serviços culturais públicos e educação social". Ela lembrou que os 4.692 museus da China acolhem mais de 200 mil atividades educacionais a cada ano, observando ainda que a vitalidade dos museus hoje requer suporte técnico.

Os museus estão hoje na encruzilhada de vários desafios sociais, como fonte de empregos e receitas no coração da economia criativa, fomentando o sentimento de pertencimento e coesão social e como motores da cooperação internacional. Eles estão na linha de frente da luta contra o tráfico ilícito de bens culturais e são alvos primários em tempos de conflito. Markus Hilgert, Diretor do Pergamonmuseum (Alemanha), exortou os museus a "assumirem a liderança, dentro de suas comunidades, na criação de redes resilientes de proteção do patrimônio cultural". Emily Rafferty, Presidente Emérita do Metropolitan Museum of Art (EUA), citou o exemplo dos milhares de cidadãos de Nova York que visitaram este museu no rescaldo do 11/9 para destacar o poder dos museus como forças, unificadoras capazes de fomentar um sentimento de pertencimento.

O Fórum foi uma grande oportunidade para ajudar a comunidade dos museus na busca por soluções para problemas críticos. A Declaração de Shenzhen (em inglês) insta todas as partes interessadas a reforçarem o papel e as capacidades dos museus na proteção do patrimônio cultural, adotando normas éticas e tecnológicas e desenvolvendo a cooperação a nível internacional. Também encoraja a plena implementação da Recomendação da Unesco de 2015 e explora a possibilidade de um relatório global sobre os museus. No futuro, o Fórum servirá de órgão consultivo ao Diretor-Geral, que solicita uma cooperação inovadora para promover os museus e reduzir as desigualdades entre eles. O Fórum foi co-organizado com a Comissão Nacional da República Popular da China à Unesco, Município de Shenzhen, Zhi Zheng Museu de Arte e da Administração Estatal de Patrimônio Cultural (SACH) da China.

Fonte: página da Unesco, em inglês.
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