Unesco adota a Declaração de Shenzen, por um novo pacto para os museus

Cerimônia de encerramento do Fórum

Fórum de Alto Nível da Unesco adota a Declaração de Shenzhen e apela a um novo acordo para os museus. 

"Os museus são laboratórios de ponta da nossa humanidade partilhada - para proteger o nosso patrimônio, para catalisar a nova criatividade, para nos ajudar a captar a complexidade do nosso mundo", declarou a Diretora-Geral da Unesco, Irina Bokova, no Fórum de Alto Nível sobre Museus, realizado em Shenzhen, República Popular da China, de 10 a 12 de Novembro.

O Fórum de Alto Nível sobre Museus foi criado pela Unesco para reunir os decisores políticos e a comunidade global de museus, para promover o papel dos museus na geração de benefícios sociais, culturais, educacionais e econômicos, que está no cerne da Recomendação da Unesco de 2015 sobre a Proteção e Promoção de Museus e Coleções, sua Diversidade e seu Papel na Sociedade.
Em mensagem dirigida aos participantes, o Presidente Xi Jinping, da República Popular da China, declarou que "os museus são pontes que ligam o nosso passado ao presente e ao futuro". Ao abrir o Fórum, a vice-primeira-ministra Liu Yandong reafirmou as muitas funções dos museus nas sociedades modernas, considerando que "o museu de hoje não é apenas um instituto para coleções, proteção, pesquisa e exibição de patrimônio cultural, mas também para fornecer serviços culturais públicos e educação social". Ela lembrou que os 4.692 museus da China acolhem mais de 200 mil atividades educacionais a cada ano, observando ainda que a vitalidade dos museus hoje requer suporte técnico.

Os museus estão hoje na encruzilhada de vários desafios sociais, como fonte de empregos e receitas no coração da economia criativa, fomentando o sentimento de pertencimento e coesão social e como motores da cooperação internacional. Eles estão na linha de frente da luta contra o tráfico ilícito de bens culturais e são alvos primários em tempos de conflito. Markus Hilgert, Diretor do Pergamonmuseum (Alemanha), exortou os museus a "assumirem a liderança, dentro de suas comunidades, na criação de redes resilientes de proteção do patrimônio cultural". Emily Rafferty, Presidente Emérita do Metropolitan Museum of Art (EUA), citou o exemplo dos milhares de cidadãos de Nova York que visitaram este museu no rescaldo do 11/9 para destacar o poder dos museus como forças, unificadoras capazes de fomentar um sentimento de pertencimento.

O Fórum foi uma grande oportunidade para ajudar a comunidade dos museus na busca por soluções para problemas críticos. A Declaração de Shenzhen (em inglês) insta todas as partes interessadas a reforçarem o papel e as capacidades dos museus na proteção do patrimônio cultural, adotando normas éticas e tecnológicas e desenvolvendo a cooperação a nível internacional. Também encoraja a plena implementação da Recomendação da Unesco de 2015 e explora a possibilidade de um relatório global sobre os museus. No futuro, o Fórum servirá de órgão consultivo ao Diretor-Geral, que solicita uma cooperação inovadora para promover os museus e reduzir as desigualdades entre eles. O Fórum foi co-organizado com a Comissão Nacional da República Popular da China à Unesco, Município de Shenzhen, Zhi Zheng Museu de Arte e da Administração Estatal de Patrimônio Cultural (SACH) da China.

Fonte: página da Unesco, em inglês.

Seminário Mecenas na República: conteúdos disponíveis

Numa publicação do mês passado, registramos a passagem dos dez anos do Seminário Mecenas na República, organizado pelo Fumproarte - o fundo da Secretaria Municipal da Cultura, que eu coordenava à época - com parcerias da Câmara, Fundacine e apoios da Regional Sul do MinC e do Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo, sede do evento, que discutiu o financiamento público à cultura nas várias esferas de governo.

Ao reler a transcrição dos conteúdos gravados, até então inéditos, verificamos a atualidade dos debates ali travados, motivo pelo qual decidimos compartilhá-los com nossos seguidores interessados no tema. Abaixo do texto, reproduzimos o programa do seminário. Boa leitura.




Programa:

1. Mecanismos de financiamento à cultura no cenário internacional.
Palestrante: Luís Carlos Prestes Filho – Pontifícia Universidade Católica-RJ.
Debatedor: Leandro Valiati – Faculdade de Ciências Econômicas -UFRGS.
Mediador: Álvaro Santi – Gerente do Fumproarte/SMC-PMPA.

2. Financiamento público federal à cultura no Brasil. 
Palestrantes: Adriana Moreira – MinC – Secretaria de Incentivo e Fomento à Cultura.
Cristiane Olivieri – Centro de Estudos Multidisciplinares da Cultura (CULT-SP).
Debatedor: Fernando Schüler – Fundação Iberê Camargo.
Mediador: Cícero Aragon – Fundação Cinema do RS.

3. Os 10 anos da Lei de Incentivo à Cultura. Perspectivas para o Fundo de Apoio à Cultura do RS.
Debatedores: Victor Hugo – Secretário de Estado da Cultura.
Guilherme Castro – Presidente do Conselho Estadual de Cultura.
Paulo Fernandez – Assoc. Produtores. Culturais do RS.
Mediadora: Flora Leães – Presidente da Comissão de Avaliação e Seleção do Fumproarte

Palestra sobre a Ancine
Palestrante: Zeca Zimmerman – Ouvidoria da Agência Nacional de Cinema (Ancine).
Mediador: Cícero Aragon – Fundação Cinema do RS.

4. Leis de incentivo à cultura em outros municípios: relatos.
Painelistas: Carla Prestes – Prefeitura de Belo Horizonte.
Humberto Gabbi Zanatta – Secretário de Cultura de Santa Maria (RS)
Luiz Carlos Moreira – Engenho Teatral (SP)
Selma Moreira Félix – Prefeitura de São Paulo.

5. Os 12 anos do Fumproarte em Porto Alegre: um balanço.
Palestrante: Álvaro Santi – Fumproarte/SMC - PMPA
Debatedores: Marley Danckwardt – SATED-RS.
André Venzon – Assoc. Rio-grandense Art. Plást. Chico Lisboa.
Ana Luiza Azevedo e Jaime Lerner – Assoc. Profissionais Técnicos Cinematográficos do RS.

6. Diretrizes para uma lei de incentivo à cultura de Porto Alegre.
Painelistas: Ana Fagundes – Secretária Adjunta da Cultura de Porto Alegre
Manuela D´Ávila – Vereadora e Deputada Federal eleita - Comissão de Educação, Cultura e Esportes da CMPA.
Luiz Alberto Rodrigues – Sind. da Indústria Audiovisual do RS.
Mediadora: Flora Leães – Presidente da Comissão de Avaliação e Seleção do Fumproarte


Perfil do público das artes em Porto Alegre é analisado em artigo

O Artigo "Perfil do Público das Artes em Porto Alegre", de Álvaro Santi, foi selecionado para apresentação no Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura - Enecult, que ocorre esta semana em Salvador BA. O artigo apresenta, de forma resumida, alguns dados já reproduzidos e comentados em postagens anteriores deste blog, obtidos pela pesquisa Usos do Tempo Livre e Práticas Culturais dos Porto-Alegrenses, do Observatório da Cultura, relacionando a frequência a espetáculos de música, teatro, dança, exposições e cinema com características dos entrevistados, como sexo, cor/raça, renda e escolaridade.

Em sua décima-segunda edição, o Enecult é realizado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), por meio do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (CULT), Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (Pós-Cultura) do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (IHAC) e Faculdade de Comunicação, como apoio do Observatório do Itaú Cultural.

Todos os artigos selecionados para a presente edição podem ser baixados aqui.

Cultura fortalece e torna mais seguras as cidades, diz Unesco

Relatório global Cultura: Futuro Urbano foi lançado em Outubro, na Conferência Habitat

Neste Dia Mundial do Urbanismo, o blog apresenta a seus leitores o novo documento da Unesco sobre Cultura e Desenvolvimento Urbano, traduzindo o Artigo original de LISA CONTAG, para o Site BlouinArtInfo,

A Unesco - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - defende fortemente a promoção sistemática da cultura no planejamento urbano em sua nova publicação, Cultura: Futuro Urbano, (link para o original, somente em inglês por ora) lançado em 18 de outubro durante a III Conferência das Nações Unidas sobre Habitação e Desenvolvimento Urbano Sustentável (Habitat III) em Quito, Equador. Com o subtítulo de "Relatório Global sobre a Cultura para o Desenvolvimento Urbano Sustentável", o relatório complementa a Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, que visa assegurar "os assentamentos humanos e as cidades inclusivas, seguras, resistentes e sustentáveis" ao redor do Globo.
"Espera-se que em 2030 o mundo tenha 41 megacidades como mais de 10 milhões de habitantes. A urbanização maciça e rápida pode frequentemente exacerbar os desafios para as cidades, criando mais favelas, como baixo acesso a espaços públicos, bem como um impacto negativo sobre o ambiente. Esse processo geralmente leva ao aumento do desemprego, da desigualdade social, da discriminação e da violência", explica a Unesco em declaração oficial. De acordo com as conclusões do relatório, a melhor medida para prevenir tais efeitos negativos é integrar totalmente os componentes culturais nas estratégias urbanas desde o início.
Em mais de 100 estudos de caso, a pesquisa analisa as situações, os riscos e as potencialidades das cidades em vários contextos regionais, com especial interesse também na África e na Ásia, onde a urbanização deverá continuar a aumentar rapidamente nas próximas décadas.
"A cultura está no centro da renovação urbana e da inovação. Este relatório fornece uma riqueza de insights e evidências concretas que mostram o poder da cultura como um ativo estratégico para a criação de cidades que sejam mais inclusivas, criativas e sustentáveis", declarou Irina Bokova, Diretora-Geral da Unesco, enfatizando que a Cultura "aumenta a potência social e econômica das cidades", especialmente com o apoio das indústrias criativas.
Como exemplo, o relatório refere-se a Xangai, China, que tem o status de uma Cidade Criativa conferido pela Unesco desde 2010 e é considerada atualmente "um dos maiores centros criativos do mundo, com mais de 7,4% da força de trabalho empregada nas Indústrias Criativas".
As cidades em situação de conflito e pós-conflito, como Samarra, no Iraque (que sofreu com a destruição de inúmeros locais de valor inestimável, ​​como o Santuário de Al-Askari, em 2006), também foram levadas em consideração e parecem se beneficiar da mesma forma. "Os esforços de reconstrução e reabilitação demonstraram a capacidade da cultura para restaurar a coesão social entre as comunidades e melhorar os meios de subsistência, pavimentando o caminho para o diálogo e a reconciliação", explicam os autores.
Os autores identificam três pré-requisitos para cidades culturalmente diversas, seguras e prósperas: 1) que as cidades centradas nas pessoas sejam espaços centrados na cultura; 2) que os ambientes urbanos de qualidade sejam moldados pela cultura, e 3) que as cidades sustentáveis ​​precisam de uma política integrada que se baseie na cultura.
Para alcançar esses objetivos, o relatório faz 12 recomendações:
· Melhorar a habitabilidade das cidades e salvaguardar a sua identidade;
· Assegurar a inclusão social nas cidades através da cultura;
· Promover a criatividade e a inovação no desenvolvimento urbano através da cultura;
· Desenvolver a cultura para o diálogo e as iniciativas de consolidação da paz;
· Fomentar as cidades de escala humana e de uso misto, aproveitando as lições aprendidas com as práticas de conservação urbana;
· Promover um ambiente habitável, seja construído ou natural;
· Melhorar a qualidade dos espaços públicos através da cultura;
· Melhorar a resiliência urbana através de soluções baseadas na cultura;
· Regenerar as cidades e os vínculos rural-urbanos, integrando a cultura no centro do planejamento urbano;
· Basear-se na cultura como um recurso sustentável para o desenvolvimento econômico e social inclusivo;
· Promover processos participativos através da cultura e reforçar o papel das comunidades na governança local;
· Desenvolver modelos financeiros inovadores e sustentáveis ​​para a cultura.

Saiba mais sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.
Leia o relatório completo Culture, Urban Future. (em inglês)
Leia as recomendações da UNESCO no original (em inglês)

Missão: fazer diferença. O caso do Museu de Santa Cruz, CA (EUA)

O blog apresenta, uma vez mais, conteúdo traduzido do site inglês Arts Professional, especialmente para nossos leitores. O texto  original é de Sara Lock, a respeito de uma conferência de Nina Simon, autora do livro recentemente lançado The Art of Relevance. (alguns trechos do livro podem ser lidos on-line)

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Como podem as organizações artísticas certificar-se de que são importantes para seu público e seus patrocinadores?

Em 2011, Nina Simon tornou-se Diretora Executiva do Santa Cruz Museum of Art & History (MAH) e embarcou em uma "missão para fazer diferença". A organização estava à beira da extinção por desimportância. Não tinha dinheiro e falava-se em fechar suas portas.
No atual contexto de financiamento, este cenário pode soar bem familiar, mas chamou a atenção de Nina para um problema ainda maior. A razão pela qual não havia dinheiro era que não havia um número suficiente de pessoas na comunidade a quem o MAH realmente importasse.
Se nossas organizações e nosso trabalho devem fazer diferença para as pessoas a ponto de atingirmos a sustentabilidade, então temos de compreender o nosso entorno. Embarcar em uma "missão para fazer diferença" salvou o MAH da extinção. A história da transformação do museu na instituição próspera que é hoje pode servir tanto como uma inspiração quanto como um alerta. É um lembrete do que pode acontecer quando perdemos de vista o que é importante para as nossas comunidades e nossos apoiadores.
No setor cultural, temos a felicidade de sermos regularmente lembrados de que somos importantes para as pessoas. Cada ingresso comprado, cada visita feita e cada crítica favorável são um endosso ao nosso trabalho. Mas e aquelas pessoas a quem nós não ainda não importamos?

Assíduos x Ausentes

As barreiras entre fiéis seguidores de nossa organização e pessoas para quem ela ainda não importa é lindamente ilustrada na definição de Nina para a relevância como uma chave que traduz significados. Ela não é o próprio significado, mas um ponto de conexão que abre portas para que as pessoas possam ter uma experiência poderosa.
Nossos frequentadores assíduos, aqueles que amam as artes, tem as chaves de nossas portas. A chave gira na fechadura e lhes permite entrar em nossas organizações sem dificuldades. Eles conhecem nosso trabalho, estão interessados ​​no que fazemos e sabem como se programar, por isso é fácil para eles participarem.
Porém, do lado de fora de nossas portas, há muitas outras pessoas que sequer vêem esas portas. Eles não possuem uma chave ou qualquer forma de imaginar que aquilo que está aqui dentro pode ser de algum valor para eles. Se você ama as artes e tem essas chaves, é fácil esquecer que é necessário tê-las para entrar. Mas se você não tem isso, é impossível atravessar aquelas portas.
A definição de relevância de Nina provém de dois critérios que, segundo sugerem os pesquisadores linguísticos Deirdre Wilson e Dan Sperber, tornam algo relevante: efeito cognitivo positivo e esforço. Para que algo seja relevante para você, esse algo deve fornecer informações significativas, as quais você pode acessar com mínimo esforço.
Se nossas organizações e nosso trabalho devem fazer diferença para as pessoas a ponto de atingirmos a sustentabilidade, então temos de compreender as pessoas que estão de fora. Precisamos saber o que elas valorizam, o que é significativo para eles e o que podemos mudar na forma como fazemos as coisas para proporcionar-lhes uma experiência sem esforço.

Mudanças na estratégia e propósito

Nos últimos cinco anos, o MAH viu quadruplicar o número de visitantes e mais do que duplicou o seu quadro de pessoal e orçamento. Nina atribui esse progresso às mudanças de estratégia e de propósito. Ele começou a fazer do museu um espaço de encontro social, e a olhar para a arte e a história em busca de ideias e narrativas para serem encontradas, desafiadas e usadas para conectar comunidades. Ela focou seu trabalho na comunidade e naquilo que era importante para a população local, começando a articular o impacto que a instituição pretendia obter através da cultura.
As exposições de arte e a programação que o MAH vinha fazendo eram importantes para um pequeno grupo, mas não tinham importância suficiente para um número suficiente de pessoas. A ideia de usar a criatividade e cultura para construir uma comunidade mais forte e conectada conseguiu motivar a comunidade, que foi se envolvendo, participando e acabou apoiando o museu, inclusive financeiramente.
Para acolher os "excluídos", o MAH também mudou sua programação e abriu novas portas, que eram relevantes e visíveis para eles. Foram organizados eventos em bares e ambientes familiares, que atraíam as pessoas e diminuiam o esforço percebido em participar.

Iniciando a sua própria missão para fazer diferença

A história do MAH não é um modelo para alcançar a relevância, mas existem cinco passos fundamentais que podem ser tomadas a partir de sua trajetória:
  1. Certifique-se a sua organização tem clareza sobre com quem ela se preocupa mais - quem são os excluídos a quem você quer realmente atingir?
  2. Torne-se um convidado nessa comunidade - ingressando como aprendiz e explorador, não para vender algo, mas por um interesse genuíno naquilo que importa às pessoas.
  3. Faça perguntas honestos à sua organização. O que não está funcionando? O que precisamos mudar?
  4. Esteja preparado para reformular sua programação e abrir novas portas, que sejam relevantes, visíveis e atraentes para os excluídos com os quais você se preocupa.
  5. Prepare-se para ter diálogos difíceis com frequentadores assíduos, que podem se sentir ameaçados ou simplesmente não concordar com as mudanças.
Algumas dessas etapas podem ser desafiadoras. Ao assumir seu papel de liderança na comunidade, pode surgir a impressão de se está abrindo mão do controle artístico. As mudanças podem acarretar o risco de afastar os frequentadores habituais. Mas se a alternativa é acabar onde começou o MAH, à beira da extinção por não fazer diferença, então talvez esse seja um risco que vale a pena correr.

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